A Europa diante do tsunami previdenciário

Os países europeus enfrentam um tsunami demográfico: um descasamento crescente entre baixas taxas de natalidade e uma longevidade maior. Poucos países estão preparados para isso, registra o The Wall Street Journal .

A população de aposentados da Europa, que já é a maior do mundo, continua crescendo. Para cada 100 trabalhadores europeus, há 42 com 65 anos ou mais aposentados, número que deve subir para 65 até 2060, segundo a agência de estatísticas da União Europeia, a Eurostat. É bem mais que nos Estados Unidos, por exemplo, onde há 24 pessoas com 65 anos ou mais que não trabalham para cada 100 trabalhadores, segundo a Agência de Estatísticas do Trabalho dos EUA, que não tem uma estimativa para 2060.

Apesar de o problema vir se desenhando há tempos, ele vem ganhando urgência à medida que a dívida preocupante dos países europeus, fruto da crise de 2008, pressiona seus governos a reavaliar suas prioridades. A Grécia, o país em pior situação, teve que reduzir os benefícios de seu sistema de previdência várias vezes. Mas a Grécia não é o único país da região sendo forçado a reconhecer que prometeu aposentadorias que não pode pagar.

Mesmo no Brasil — cuja população é bem mais jovem, embora também esteja envelhecendo — a reforma da previdência é vista por muitos como vital para garantir a saúde das finanças públicas no futuro. A Europa enfrenta pressão ainda maior.

O aperto demográfico pode ser amenizado pelo influxo de mais de um milhão de imigrantes nos últimos 12 meses. Se muitos deles acabarem um dia se juntando à população economicamente ativa, o resultado pode ser um aumento na receita com impostos que manterá vivo o modelo previdenciário. Mas, antes que os imigrantes tenham sequer o direito de trabalhar, eles precisam de casa, comida e assistência médica. Assim, a chegada deles também afetará as finanças públicas.

A pressão sobre a previdência não segue o padrão familiar da crise da zona do euro, que opõe o mais próspero norte da Europa ao endividado sul. Alguns dos países às voltas com os maiores desafios demográficos, como Áustria e Eslovênia, estão entre os maiores críticos da Grécia na crise de dívida do bloco.

A Alemanha, por sua vez, “defende regras fiscais na Espanha e outros países, mas estamos relaxando as regras de aposentadoria” em casa, diz Christoph Müller, acadêmico alemão que presta consultoria à UE sobre estatísticas previdenciárias. Ele citou uma mudança recente que permite a alguns trabalhadores receber benefícios dois anos antes, aos 63 anos. Um porta-voz do Ministério do Trabalho da Alemanha disse se tratar de uma medida muito limitada.

A UE tem pressionado governos europeus a ser mais transparentes sobre os custos de seus sistemas de previdência. Eles são obrigados a publicar previsões dos pagamentos a cada ano.

A partir de 2017, as regras da UE vão exigir que os governos do bloco calculem o valor total que terão de pagar aos atuais e futuros pensionistas. Tornar essa obrigação mais visível pode forçá-los a lidar com a questão, diz Hans Hoogervorst, presidente do Conselho de Normas Internacionais de Contabilidade e ex-ministro da Fazenda da Holanda. “Elas vão deixar claro que a situação atual é insustentável.”

Admitir isso pode desencadear algumas decisões difíceis. Moritz Kramer, diretor de classificação de risco soberano da Standard & Poor’s, diz que os governos europeus terão de acabar reconhecendo, em algum momento, que os trabalhadores de hoje não receberão a mesma quantia dos planos de previdência públicos.

(Diário Abrapp)

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